segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Bruuuuuuuuceeeee-hYbris


Há uma simplicidade imensa neste homem, uma humildade com sabor a passado. Está sentado ao lado de grandes homens, mulheres que fecham os olhos e mergulham numa voz quente, ali, no palco. Sabe a lareira crepitante em dia gelado esta voz. Sabe a camisolas de golas altas, cálidas, como se a alma ficasse subitamente aninhada, protegida. Cantam para o homem que se encontra no lado oposto. Cumprimentam-no como se de um deus se falasse, c...omo se um deus se homenageasse. Mas não é nenhum deus. É apenas um homem que canta, é apenas um homem que dá voz às vozes que emudeceram porque a vida assim lhos exigiu. Há um quase não acreditar. E é quente a voz de Sting, é gigantesca a voz de Bruce Springsteen. É, estranhamente, ou talvez não, triste o seu olhar. Há um sorriso tímido. Chora a mãe atrás, olham-nos atores que desapareceram. No fim, o grito…. Bruuuuuuuuuuuuuuuuuuuucce. Bruuuuuuuuuuuuuuuuuuuucce. Acena-lhes de forma simples. Jon Stewart dissera, no início: “Bruce não canta, testemunha”. Tratam-no por “The Boss”. Porque é isso que ele é. The Boss. Grande. Enorme. Maior do que o que está ao seu lado. Muito maior. É de simpliciade e humildade que se fazem as grandes pessoas. 
 
É esta gola alta, esta lareira que se sente quando se está aqui, numa Sala que começa com a letra R.
 
 
hYbris
 
 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

... em processo...



 

 
É assim que saio de casa. A olhar e a tentar perceber se o que vejo é neve, se apenas granizo que se acumulou durante a noite. Paro, fotografo. Acorda-me a brisa gélida que me atravessa a alma. Procuro o carro, que não me recordo onde deixei. Continua o frio. Olho as nuvens cinzentas, escuras, que me olham com um sorriso, a prometerem novo vendaval. Recordo a cama quente e continuo. Há corações quentes para onde vou, há novas procuras, novos desafios. Dificilmente alguém compreenderá esta paixão. Os que lá estão sabem-na, conhecem-na. Os que não lá estão também. Sentem-na. Querem-na, ainda que em formas diferentes. Como na vida. A estabelecer prioridades. Mas a procurar ser o melhor possível.

O caminho é feito debaixo de uma chuva miúda e traquina. O regresso será feito com o granizo a fustigar violentamente o vidro do carro. 

Já ele me espera, à estrada da Sala-R. Nota-se o sono no rosto de quem está. Mas a vontade de ali estar. “É a Hora”, diz o Poeta-Plural. Será a nossa, hoje. E será no Final.

           “No mais Musa, no mais, que a Lira tenho
             Destemperada, e a voz enrouquecida,
             E não do canto, mas de ver que venho
             Cantar a gente surda, e endurecida:
             O favor com que mais se acende o engenho,
             Não no dá a pátria, não, que está metida,
             No gosto da cobiça, e na rudeza
             D' hua austera, apagada, e vil tristeza.”


Disse-o o Poeta. E continuamos. Primeiro as cadeiras. Depois o chão. Está frio. O pequeno aquecedor procura trazer-nos algum conforto. A sala é grande. Mas maior é a vontade. “Não achas que as pessoas são uma coisa muito bonita?” Há pequenos toques de mão. Talvez fiquem para sempre. E continuamos. Teremos a magia do cinema. Veremos o arco-íris em estranhos bailados. Sorriremos no final.



Porque uma vez hYbris, sempre hYbris.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Aparência-hYbris









 
 
 
Sabem…
Sai-se de casa num carro, apanham-se comboios para se chegar a um destino, caminha-se enquanto olhamos, nas montras, manequins que testemunham o que lá fora se passa (quem verá quem, no fundo?), vive-se, cada um à sua maneira (tantas vezes, cada vez mais, à maneira dos que nos querem a viver de determinadas formas) e o tempo passa. Ao nosso lado, acompanham-nos os anónimos, os amigos, a família, os colegas, os profissionais e os amadores, os que nos amam e os que nem-por-isso e os que procuram, simplesmente, uma vida. A sua, talvez. Ou a dos outros, também. Ver pessoas numa estação de comboios é sempre uma experiência que vale a pena passar por ela. Ver pessoas nos aeroportos também. Há as partidas (os choros, os abraços quentes, o tem-cuidado-contigo-dá-notícias, o boa viagem, a vontade de ir também…) e as chegadas (os choros, os abraços quentes, o que-tal-a-viagem, vou-levar-te-a-imensos-sítios, olhares cúmplices, as esmagadoras-saudades, o ficar-para-sempre…). Estar num jardim, sentado, também traz momentos inesquecíveis. Porque ouvimos pássaros e as pequenas flores que com eles dialogam. Bebemos a água que vemos naquela fonte (ali, veem?) e sentimos este quentinho do sol que nos sobe pelo corpo, enquanto nos surpreende uma qualquer brisa vinda não sei de onde. E vemos. E olhamos. E ouvimos, mais e mais. E sentimos. Sentimos. E divagamos por nós próprios, como se fôssemos apenas uma estrada cheia de curvas, em que precisamos de encontrar a linha certa para não se sair do caminho. Afinal, as curvas, como se diz naquele anúncio, são retas interessantes, o que é curioso. E no meio disto tudo, depois, para se conhecer mundo, o estar quieto. Estar, simplesmente, parado. Sabem porquê?
 
 
 
Porque estar parado também é andar. Estar parado também é andar.