quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ler e refletir em modo-hYbris...




"Quanto maior é o talento do ator, mais ele se preocupa com a sua técnica, sobretudo quanto às suas qualidades interiores. (...) Nós, simples mortais, temos a obrigação de adquirir, desenvolver, treinar cada um dos elementos que compõem o estado criador em cena.

Isso leva tempo e dá muito trabalho. Mas nunca devemos esquecer que o ator que não tem nada além de capacidade nunca será um génio, ao passo que aqueles cujo talento é talvez menor, se estudarem a natureza da sua arte, as leis da criatividade, talvez se possam erguer à categoria dos que se assemelham aos génios. O sistema facilita esse desenvolvimento.
 
(...) Hoje vocês aprendem alguma coisa. E amanhã já pensam que podem dominar perfeitamente a técnica. Mas o sistema não é uma roupa feita que a gente enfia e sai andando, nem um livro de cozinha que basta se achar a página e lá está a nossa receita. Não. Ele é todo um tipo de vida, vocês terão que crescer com ele, de se educarem por ele, durante anos. Não podem abocanhá-lo de uma vez, podem assimilá-lo, absorvê-lo na carne e no sangue até que se torne uma segunda natureza, uma parte de tal modo orgânica dos seus seres, que vocês, como atores, sejam transformados por ele para o palco e para sempre. É um sistema que deve ser estudado parte por parte e depois fundido num todo, para que se compreendam os seus fundamentos. Quando forem capazes de abri-lo como um leque diante de vocês, é que poderão deveras apreendê-lo em sua inteireza. Não podem pretender fazê-lo de uma só vez. É como ir à guerra: tem-se de conquistar o terreno pouco a pouco, consolidar os ganhos, manter contacto com as comunicações da retaguarda, expandir, conquistar novas vitórias, antes que se possa falar em conquista definitiva.
 
(...)  O treino gradativo e o treino que isto proporciona são um enorme auxílio. Permitem-nos desenvolver cada novo recurso que aprendemos até que se torne um hábito automático, até que seja enxertado em nós. No início cada fator novo é um obstáculo, desvia toda a nossa atenção de outras questões mais importantes (...).
 
(...) A natureza criadora de todos os artistas (...) está em todos os centros e partes da nossa constituição física e espiritual, até mesmo naqueles dos  quais não nos apercebemos. Não dispomos de meios diretos para abordá-la, mas existem outros meios, pouco conhecidos e quase impraticáveis por enquanto."
 
in A Construção da Personagem, Constantin Stanislavski, Civilização Brasileira