quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

... em processo(s)...

Cena Um
 
 




Habituei-me a isto. Nas tardes em que o sol vai aquecendo a sala, a relembrar o NV e a agradecer-lhe, em segredo, esta magia feita de seres de plástico que vão dialogando entre si. Levá-los, depois, num pequeno bolso aos Sorrisos Quentes que me acolhem, cada vez que entro no Espaço-R. E ficamos por ali, depois, a confrontar os obstáculos que nos vão surgindo e a sorrir diante das soluções que encontramos. No fundo, a Vida. Apenas isso. A Vida.
 
 
 
Cena Dois
 
 
À barca, à barca, senhores, que teremos novas marés. Oh, poderoso público nosso, cá vindes vós, que cousa é esta? Entrai, entrai, não percamos mais maré...
 
Sim... Virão. Rir-nos-emos, de novo, quando se aperceberem do fogo infernal para onde caminharão... ih ih ih ih...
 
 
 
Cena Três
 






Um novo palco. Novas marcações. O frio é insuficiente para nos levar dali. Relembro, subitamente, a tempestade em que um velho Rei começou a ver, apoiado pelo seu sempre fiel Bobo. Estreitam-se relações, deseja-se, quem sabe, o Futuro-hYbris. Terão muitos desafios. A vontade de continuarmos com a mesma paixão de sempre. São assim estes processos. Feitos de olhares cúmplices. Voltarei a fechar a porta, no silêncio escuro. Ficará uma luz. E a vontade de voltar. Daqui a pouco. Um dia, qualquer dia.
 
Fiquem hYbris.
 

sábado, 24 de janeiro de 2015

... em desafios...







Voltar à magia dos ensaios. Percebermos, no fundo, quem somos e o que queremos.
 
(Vejo-vos crescer, dia a dia.)
 
Ouvem-me.
 
(Atenção à dicção. O que quer a personagem aqui? Como resolve ela a situação em que se encontra?)
 
Vamos falando da justiça e da injustiça. Do quanto podemos ser como animais. Obrigam-nos as regras a seguir desejos, vontades. As Vontades. Fica a revolta perante a Morte. Sussurram-nos os Deuses perante os nossos Desafios. Ir ao encontro da Essência do Teatro. Sim, estamos de novo a trabalhar. E apercebemo-nos que faria sentido agora este texto.
 
De hybris feito.
Em hYbris sentido.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

... a propósito...

 
Chico Buarque
Mulheres de Atenas
 

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obscenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas

As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas, serenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
 
 
(Obrigado, AI)