quinta-feira, 27 de novembro de 2014

... em processo...




Foi há muito. A Distância era o seu Caminho. E neste percurso se iam encontrando entre o Céu e o Inferno. Procuravam o Cálice Sagrado, lutavam por um Ideal onde pudessem dar repouso à Alma. Eram Cavaleiros de cruzes ao peito, feitas do sangue que lhes saía do corpo. Tornaram-no único. Como eles próprios. E aos poucos foram desaparecendo. Mas ficaram as memórias, afinal, aquilo que nos mantém humanos, errantes, navegadores. E só eles protegeram quem não podia ser responsabilizado pelos erros cometidos. E na Luz foram acolhidos.
 
 
É o que fazemos. Honrá-los. Entre o Paraíso que uns trazem todos os dias, entre o Inferno em que outros inconscientemente mergulham. Chegaremos ao Destino que desejamos. Mostraremos, com o pouco que temos, do que somos feitos. Que continuamos a aceitar o Desafio e não os abandonamos. Seremos melhores assim. Queremos que todos o sejam também.
 
 
E assim caminhamos. Entre o Céu e o Inferno de todos os dias.

 

domingo, 9 de novembro de 2014

Processos de mais um projeto...




A casa continuará a ter um jardim enorme. A ser de um grande escritor. Há um canto muito especial, uma secretária antiga onde ele escrevia. Subíamos uns degraus e estávamos na sala. Era ali que ensaiávamos, de vez em quando. Juntávamos-nos num círculo, dizíamos os textos, íamos tentando vencer os obstáculos que ele nos ia colocando à frente. Uns conseguiam-nos vencer a medo, outros, pela experiência que já tinham tornavam tudo aquilo tão simples. Como se o fosse, realmente. E acabava por ser. Mas saía sempre com a sensação que não tinha sido possível tomar o café com esta ou aquela personagem, um Outro que nos habitava, que brincava connosco às escondidas, que nos sussurrava constantemente um vem-descobre-me-preciso-novamente-do-teu-corpo. E lá ia tentando ouvi-Lo. Chegava a escrever-lhe. Já há muito que o não faço. Será este o caminho natural?

Um dia, chegámos à sala. O NV estava sentado nos degraus de pedra. Esperava-nos com um palco pequeno desenhado numa folha. Em cima da folha, botões diversos. Sabíamos o texto. As marcações. E foi ali, naquela noite fria, sobre o testemunho mudo do escritor, sobre aquela folha, que fizemos o ensaio. Afinal, os botões falavam, andavam. Os botões tinham botões. Pensáramos, inicialmente, que eram botões. Apenas botões. Mas eles eram especiais. Havia um pormenor, um toque, uma cor. Pirandello sorriu naquela noite. Sei que depois de termos ido embora, o NV e Pirandello ter-se-ão sentado à volta da lareira a falar de Teatro, da Vida, de como nos portamos nos vários palcos em que nos vamos inserindo. A sorrir. A chorar. A desejarmos a ausência do abandono ou o toque quente de mãos que nos guiam em noites de mares revoltosos. Sei que terão saído até à Ribeira, talvez beber o chocolate quente que tanto me aqueceu a Alma noutros tempos. Descobrira, mais do que nunca, quem era, quem fora o dramaturgo de nome Gil Vicente. Também ele nos observava sempre, também ele sorriu a ver a Vida daqueles botões.

Foi assim que descobri que as tampas têm Alma.