quarta-feira, 22 de outubro de 2014

... sobre o novo projeto...



Lá ao fundo, muito ao fundo
 
estão a ver, estão?
 
existe uma porta. Igual a tantas outras. Vidro, uma moldura em chapa, cinzenta. Ao lado desta porta, que é igual a tantas outras, há uma letra. É grande. Uma das que fica no final do abecedário. Não é por isso que é menos importante, claro que não. Dá felicidade a muita gente. É ali que nos alimentamos. Por isso, o seu significado ser tão cada vez mais importante. Por causa dos tempos que correm, como se costuma dizer. E por ser ali que nos alimentamos, é também ali que enchemos a Alma. O alimento é um pouco diferente. Mas não deixa de ser tão importante, afinal, como o outro. E esta letra dá lugar a outras duas. 
 
À letra "S". À letra "T".
 
Gosto de lhe chamar
 
"Sala
de
Teatro"
 
Há um palco, ali mandado construir por quem partilhou esta paixão, de alguém que acabara de chegar e, no fim, dali quis partir. Falou mais alto a Máscara. De vez em quando triste. Outras vezes, sorridente. Outros vieram. Uma estrutura em ferro, colocada no teto, levou a que as Máscaras se tornassem, ora mais sombrias, ora mais alegres, mais tristes. No fundo, mais humanas. E foi sob o olhar frustrado de Deuses que nos tornámos verdadeiramentehumanos. Que o somos cada vez mais, sempre que pisamos o chão-alma, semana a semana. Olham-nos os dramaturgos que tornaram tudo isto possível. Shakespeare, Vicente. E tantos tantos outros. Olhamos os relógios. Caminhamos, entre sorrisos, abraços, preocupações-testes-trabalhos. As colunas, brancas, que nos recordam algo tirado de um livro em grego, vão passando pelos nossos olhos. Subimos os degraus. Abre-se a porta. Que afinal já não tem só a letra "R" mas também a "S" e a "T". Invade-nos o Sagrado. Sabemos o que nos espera. As dificuldades. Ficarão as Memórias. Saberemos todos, um dia, que foi aqui que tornámos mais felizes os Deuses. Sim. Diremos "Esta foi a minha escola, ali era o sítio que tinha a letra "R"". E diremos o seu significado. Falaremos de quem somos, de quem fomos. Roupas góticas. Pescadores. Reis e filhas incompreendidas. Pássaros de Almas várias... Com uma alegria melancólica. Como tantas na Vida. Queremos os abraços quentes, os sorrisos. As dificuldades de construir personagens. Afinal, talvez seja o contrário. Não serão elas a construírem-nos?
 
A Nós?... A Nós?
 
Subitamente, os números tornam-se pontes. Respirem. Devagar. Sempre. Olhem para o que vos rodeia e percebam que tudo isso vos quer dizer alguma coisa. Em segredo. Em pequenos sussurros. Só cada um de nós saberá, de certeza, o que nos foi dito e como o guardaremos. Passeamos pelo espaço-alma à procura de um ritmo interior que já tanto nos ditou o coração. Tornamo-nos, no fundo, o coração de cada um que olhamos, o outro lado do Espelho...
  
(Obrigado!)
 
 
Descobrimos caminhares, apercebemo-nos da voracidade do Tempo. E escondido, lá bem num cantinho, testemunha quase arrogante, gritam as provas que é preciso fazer. Está na hora. É preciso vestirmos outra personagem, agora, antes de ir dormir.
 
Arrumam-se os materiais, os casacos em cima das mesas, nas cadeiras. Pega-se nas mochilas, à pressa, atendem-se telemóveis por causa das boleias. Esperam-nos Outros. Fica, como ave subtil em choro quase silencioso, a vontade de voltar. Dar as mãos a mais um Desafio. Como só nós sabemos.
 
Apetece dizer, enquanto desço as escadas, já numa obscuridade tranquila, que vale a pena tanto isto.
 
E vale.